sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O amor em tempos de World Wide Web

Conheceram-se num chat. “Lindinha fofa” e “Cara-Legal”. Conversaram despretensiosamente durante alguns minutos. Trivialidades: signo, time do coração, música favorita, o que gostavam de fazer nas horas vagas, provedor de banda larga predileto...

Concluíram que eram perfeitos um para o outro. Se apaixonaram. Começaram a namorar ali mesmo.

Só que o pobre rapaz, cego de paixão, mudou o status no “Orkut” de “solteiro” para “namorando”. Ela ficou ofendida, dizendo que ele era possessivo, e que só tinha lhe pedido em namoro para se exibir para os amigos. Se considerava uma moça discreta, e não gostava destes gestos de ostentação.

Mas a coisa desandou mesmo quando ela, magoada, “twitou” dizendo “Os homens são todos iguais #ficadica”, o que deixou o rapaz profundamente chateado. Como resposta, ele fez um post maldoso em seu blog afirmando que tinha conhecido uma garota bacana, mas que estava desiludido pois ela aparentemente “se achava a pessoa mais incrível do mundo”, o que segundo ele era contraditório, já que nem no “Beautiful People” ela tinha sido aceita. Esta foi a gota d’água no relacionamento, que acabou ali mesmo.

Excluíram-se no MSN e juraram nunca mais conversarem. Mesmo assim, vez por outra, ainda visitam em segredo o “Fotolog” um do outro aos suspiros, enquanto atualizam seus “Last.FM” com os mais extravagantes exemplares de músicas românticas que existem por aí.

Há quem diga ainda que ambos vivem trocando perguntas anônimas no “Formspring”, só para saber como anda a vida um do outro. Mas isso é só boato.

Devaneios empíricos sobre o futebol e suas vertentes supostamente filosóficas (D.E.S.F.S.V.S.F.) – A pré-temporada


“O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso.”


Bill Shankly


Quem acompanha o futebol sabe: o período que vai do fim da última rodada do campeonato nacional até a primeira partida do torneio estadual, tempo que varia entre cinco ou seis semanas, é considerado nebuloso.

Sim, sem exageros. Milhares de famílias transformam-se em um verdadeiro caos. A falta de partidas oficiais sendo disputadas faz com que uma grande quantidade de brasileiros entrem em estado de depressão futebolística. Pesquisas (empíricas, que fique bem claro) indicam que os consultórios de psicanálise tem um aumento expressivo no número de pacientes nesta época, todos reclamando do mesmo mal:

-Sei lá... Começou como um incômodo esquisito, um aperto no peito. Achei que poderia ser um negócio mais simples, como um principio de enfarte, mas não era. Era um mal sentimental, algo que vinha de dentro e que aos poucos foi aumentando. Uma angústia, uma falta de perspectiva.

-Fale-me mais sobre isso.

-Eu não sei explicar. Desde o começo de dezembro, a comida não tem mais sabor, a conversa no bar com os amigos é monótona... Mal consigo prestar atenção no que minha esposa e meus filhos dizem! Mas é só eu ver uma bola que me animo. Um arrepio me sobe pela a espinha. Pareço um cachorro quando vê um osso. É humilhante. Me ajude, doutor!

Uma das formas infalíveis de descobrir a carência futebolística de fim/início de ano é através do Teste de Rorschach. Se o paciente relatar que está enxergando coisas como “gramado”, “caneleira”, “Pelé”, “bandeirinha”, "gândula", "Galvão Bueno", “seleção de 82”, entre outras imagens do gênero, é praticamente certo que ele seja diagnosticado com a “Síndrome da Pré-Temporada”. O tratamento é feito geralmente a partir de vídeo tapes com compactos das principais partidas do último campeonato ou de recortes de jornais e links da Internet com informações recentes sobre especulações de contratações dos grandes clubes do país. Também recomendam-se visitas a campos de peladas na condição de espectador. Participar do jogo não é aconselhado, pois segundo pesquisas, o acúmulo de emoções e da frustração de pré-início de temporada pode gerar ações extremas, como crises de choro e ameaças ao juiz.

-Seu imbecil cretino!

-Qual é a tua Milton? O jogo já acabou... Pare de me encher!

-Admita que estava mal intencionado, canalha! Três pênaltis. Três! Ladrão!

-Mas vocês ganharam de 15 x 2! Pra que reclamar?!

-Pois podia ter sido 18!

-Ei... Peraí! Você tá chorando, Milton?

-Não é justo, não é justo...

Dizem que o Ministério da Saúde já está estudando alternativas para solucionar o problema em parceria com o Ministério dos Esportes. Especula-se que uma das propostas é alongar a duração dos campeonatos para que eles preencham este período de inatividade. Associações de jogadores reclamam que a medida é infundada, e que os atletas perderão seu período de descanso. Mas fontes do Palácio da Alvorada já garantem a idéia tem o aval do presidente que teria dito que “o importante é ver o Corinthians jogar”.

Pelo visto, a discussão vai longe.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O convidado

-Feliz 2010! – Disse o rapaz envolvendo a moça, a dona da festa, num longo e demorado abraço.

-Obrigada. Pra você também. – Respondeu ela meio assustada com o avanço repentino do rapaz, que, numa primeira olhada, não reconheceu.

-Muito obrigado.

-Imagina. Ei... Desculpe a indelicadeza, mas... Posso te fazer uma pergunta meio constrangedora?

-Obviamente.

-Quem é você mesmo? Eu sei que é meio chato perguntar, mas é que eu não estou acostumada com tanta gente aqui em casa, e devo ter bebido demais, por isso não estou reconhecendo direito o pessoal... Foi mal! – Disse a moça antes de dar uma gargalhada constrangida sob o olhar aparentemente compreensivo do convidado desconhecido.

-Imagina... Isso é super comum. Eu sou o Mauro. Maurinho para os amigos.

-Ah sim... Mas ainda não estou lembrando direito quem é você.

-Você não me conhece.

-Ah não? Você é amigo de alguém da galera, suponho?

-Na verdade não.

-Bem... Então como... Você... Quer dizer: como é que você veio até aqui?

-Para ser sincero eu estava andando pelo prédio, vi a movimentação na porta e resolvi entrar. Espero que não se importe.

-Ah... Bem...

-Esse canapé está uma delícia. É feito do que?

-Ah... O canapé? É...

-Desculpe. Só agora me dei conta: seu nome é?

-Meu nome? Maria! Mas veja...

-Muito prazer, querida. Está uma delícia, Maria. Divino mesmo.

-Ah... Obrigada.

-De nada. Já comi centenas de canapés, mas este definitivamente é o melhor.

Constrangidíssima, a dona da festa parecia estar determinada a pedir para que o rapaz saísse. Ele não estava incomodando ninguém, mas era no mínimo temerário deixar um desconhecido frequentar uma festa que era só para os amigos mais íntimos dos donos da casa. Além do mais, o rapaz já tinha dado conta de três garrafas de champanhe e de dúzias de salgadinhos em poucos minutos. Levando em conta que o estoque da festa não era tão vasto assim, mantê-lo ali poderia significar o fim da comida muito antes do planejado.

-É Mauro, né?

-Maurinho pra você, Maria.

-Ah... Ok. Veja bem Maurinho...

-Pois não.

-Eu sei que isso é bem indelicado...

-Sim?

-Mas é que... Bem... Eu nem te conheço direito, entende? Fico meio desconfortável com um convidado que é... Digamos... Penetra! Será que você me entende?

-Perfeitamente.

-Ótimo, ótimo.

-Nesse caso, faço questão de me apresentar solenemente. Eu sou o Mauro, moro ali no Boqueirão. Estou desempregado, mas faço uns bicos por aí, sabe? Só pra descolar uns trocados... Hoje, por exemplo, o síndico me pediu pra verificar a fiação do seu prédio que estava dando defeito. Sou de Áries, tenho 27, gosto de música... O que mais?

-Poxa Mauro... Acho que você não está entendendo direito onde quero chegar.

O Mauro sorriu satisfeito e lançou uma cara divertida do tipo “isso sempre acontece”.

-Imagina, Maria. Isso é normal. Somos dois adultos. Crescidos. É natural rolar uma atração mútua.

-Não, não é isso!

-Não fuja deste sentimento, Maria. Eu sou um sujeito liberal, maduro. Senti que está rolando um clima entre nós desde que cheguei. E pra ser sincero, te achei bem sexy e...

-Eu sou casada! Essa festa foi organizada pelo meu marido.

-Não tem problema. Eu sou discreto.

Convencida de que não conseguiria se livrar do bicão sem ser mais “específica”, ela resolveu botar a cordialidade de lado e deixar tudo bem claro:

-Escuta, Mauro: eu não estou a fim de você, ouviu? Eu, na verdade, estou tentando te pedir para se retirar do meu apartamento. Você é um penetra, que entrou sem ser convidado e já comeu sozinho metade do estoque de salgadinhos. Não dá para continuar desse jeito. Tentei maneirar, mas não dá.

-Como assim? – Perguntou o Mauro, pensativo enquanto mastigava empolgado três canapés de uma vez.

-Estou te pedindo pra sair. Sair, sabe? Do verbo “dar o fora daqui antes que eu chame a polícia”! Entendeu agora?

O Mauro, com uma cara de absoluto espanto, engoliu assustado os canapés.

-Eu... Eu... Estou chocado.

-Por favor. Estou te pedindo isso é para o seu bem. Antes que meu marido descubra que a festa tem um bicão e que ainda por cima ele está dando em cima de mim, pois nesse caso é provável que você saia daqui pela janela.

-Maria...

-Sim?

-Não precisa fazer isso. Sei que está assustada com a situação. Ficar atraída assim, por um completo desconhecido, de uma hora para outra é complicado. Mas eu sou compreensivo, e posso até ir falar com seu marido se você quiser... Eu senti que havia algo de especial entre nós, Maria. Vai negar isso?

Irritada, a Maria mandou o bom senso às favas e desabafou:

-Ahhh rapaz... Se liga, vai! Dá o fora daqui de uma vez. – Disse ela, enquanto empurrava o Mauro pelas costas até a porta, que foi fechada com violência logo depois dele ter saído.

Já no corredor, o Mauro lamentou a falta de cordialidade existente no mundo atual. Lembrou dos bons tempos em que era possível ser penetra numa festa de réveillon, comer a vontade e ainda ter uma noitada com alguma das convidadas. A cada ano que passava, ficava cada vez mais evidente aos seus olhos que aquele mundo estava perdido.

Antes de pegar o elevador à procura de outra festa em algum apartamento, ele fez questão de gritar a todo pulmão um desaforo na direção da porta da anfitriã que tinha lhe despachado.

-Ei! Maria! Sabe o Canapé? Eu menti! Aquela porcaria é a pior coisa que eu já comi!

O Maurinho é assim: não leva desaforo pra casa.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O escritor

Os colegas de trabalho eram taxativos: o Alberto era uma figuraça. Bastava saírem juntos para uma confraternização qualquer, para que ele começasse a monopolizar as atenções falando de suas experiências como escritor. Sim, escritor: ninguém sabia dizer ao certo quando ou como tudo começou, mas de um dia pro outro ele chegou no trabalho anunciando a todos que tinha sido seduzido pela arte das palavras, e que iria se dedicar ao ofício de romancista nas horas vagas.

O que no começo parecia só mais uma das inúmeras invencionices passageiras do Alberto, foi se tornando uma coisa séria. Quase todos os dias ele chegava cedo só para relatar aos colegas, em detalhes, todos os meandros e tramas dos quatro romances diferentes que estava escrevendo simultaneamente.

-E então a Frida... Lembra da Frida, aquela personagem secundária que te falei ontem?

-Desculpe Alberto.Eu estava checando esses relatórios... Nem estava te ouvindo direito.

-Eu estava falando da Frida, a personagem do meu livro.

-Ah sim...

-Então... A Frida, repentinamente, vai descobrir que ela é uma androide assassina criada pelo governo da Coréia do Norte, e que tem como objetivo principal eliminar os Sete Ninjas Samurais Secretos.

-Humm...

-E então, a partir disso, ela passa a se questionar sobre sua natureza não humana... Se ela tem mesmo que seguir sua programação e matar os Sete Ninjas Samurais Secretos ou se ela deve resistir e fugir desta programação. Tá acompanhando meu raciocínio?

-Desculpe, Alberto. Estava falando comigo?

Os amigos ainda apostavam que cedo ou tarde o rapaz desistiria da literatura e arranjaria outro hobbie menos exótico, como videogame ou xadrez. Mas o Alberto estava levando tão a sério a novidade que já estava começando a se vangloriar de suas “habilidades literárias” com desconhecidos.

-Muito prazer, sou o Alberto. Bancário e escritor...

O choque de todos foi ainda maior quando certo dia ele não apareceu no trabalho pela manhã, e mandou um e-mail à tarde avisando a todos que tinha abandonado o emprego para se dedicar exclusivamente a sua carreira de escritor. Disse que jamais se esqueceria do apoio dos amigos, e que prometia mandar uma cópia autografada do seu primeiro livro para todos.

Uma pequena força tarefa formada por seus colegas se mobilizou para tentar dissuadir o Alberto da ideia de abandonar o emprego, mas não tiveram sucesso. Tudo o que conseguiram foi ouvir a revelação de que ele estava tão empolgado com os novos projetos, que tinha resolvido gastar todas as suas economias em viagens ao redor do mundo com o objetivo de conhecer culturas de outros países, e com isso, escrever romances baseados nos hábitos e na tradição de cada povo que visitasse. Já tinha até comprado a passagem. Iria começar pelo Iraque.


Depois de muitos meses sem qualquer tipo de notícia sobre seu paradeiro, um de seus amigos do trabalho encontrou o Alberto na rua, maltrapilho, pedindo moedas aos transeuntes. Surpreso com a situação, levou-o para casa, onde ele lhe explicou que depois de visitar vários países, acabou ficando sem dinheiro e sem ideias, e foi deportado para o Brasil faziam poucos dias. Sem nenhum bem de valor (tudo o que tinha foi vendido para financiar suas viagens) e nem ter para onde ir, resolveu fazer um laboratório para um novo romance, a história de um belo e talentoso escritor que, desmemoriado, viveu alguns anos nas ruas, até conhecer e se casar com uma rica e poderosa condessa australiana que passava pelo país.

Ao contar para os ex-colegas da situação do Alberto, todos se mobilizaram para reaver seu emprego, o que foi conseguido depois de algum tempo.

Hoje o Alberto vive uma vida normal e feliz, trabalhando novamente como bancário. E quem achou que os inúmeros romances abandonados pela metade o frustraram, se enganou. o rapaz não largou o hobbie de escritor, e anunciou que está mais confiante do que nunca com seu novo projeto literário, o qual ele jura que finalmente será lançado: um livro de auto ajuda onde o rapaz conta todos os segredos para que pessoas comuns possam vencer na vida e ter sucesso em suas iniciativas mais ousadas.

Quem entende do gênero, garante: vai ser sucesso.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pílulas

Se conheceram no banquinho de um parque. Idosos, ambos com mais de 80 anos. Como todo clichê que se preze, ele alimentava alguns pombos com migalhas de pão, enquanto ela tricotava um suéter. Faziam isso todos os dias, mas demoraram a se dar conta um do outro. Depois de compartilharem a mesma área do parque por meses sem se notar, cruzaram os olhares por acaso. Simpatia mútua.

Foi ele quem tomou a iniciativa da aproximação. Era do tempo em que os homens tinham por obrigação moral tomar a atitude. Sentou-se discretamente num banco próximo ao da senhora simpática que, com um esforço tremendo, tentava notar disfarçadamente sua aproximação com o canto dos olhos. A vista cansada já não permitia uma percepção tão eficiente quanto a da juventude, mas era possível notar que o cavalheiro grisalho tinha se colocado próximo a ela.

O silêncio perdurou por alguns minutos. Ele tentava achar um bom pretexto para puxar conversa. Ela, tentava se fazer de distraída.

-Olá! Bom dia.

Ela não respondeu. Se deu conta de que precisava falar mais alto.

-Olá!

-Oi!

-Me permite?

-O que?

-Alimentar os pombos.

-Claro.

-Gosta de pombos?

-Não muito. Dizem que são aves sujas.

-Também pensava assim. Mudei de ideia com o tempo.

-Entendo. Eu, desde menina, aprendi a não mexer com eles.

-Força do hábito, não é?

-Acho que sim.

O silêncio voltou a imperar. Ele achou-a simpática. Tinha uma voz bonita, e era surpreendentemente articulada. Sorria toda vez que terminava uma frase. Ela também tinha simpatizado com o senhor. Não sabia explicar bem o motivo, mas tinha gostado. Tinha um ar elegante, envolvente. Não tinha perdido o charme mesmo com aquela idade.

No entanto, nenhum dos dois sabia bem sobre o que falar. Fazia muito tempo que estavam sozinhos: a vida tinha levando embora seus companheiros cedo demais. Naquela altura da vida, a insegurança era inevitável. Ambos sentiam-se sem assunto, mas acima de tudo, sem a coragem necessária para manterem um diálogo qualquer. Quem diria que depois de décadas sentiriam a mesma timidez dos tempos de adolescente.

Cruzaram os olhares novamente. Sorriram, e voltaram aos seus afazeres apenas para manter as aparências, já que ainda estavam pensando em uma forma de continuar a conversa. Nenhuma ideia surgia. Concluíram, resignados, que o tempo tinha lhes tirado a habilidade de se relacionar com as pessoas. Que faltava-lhes o tato necessário para se aproximar de alguém, mesmo que de idade semelhante.

O tempo, no fim das contas, era cruel.

Conformado, ele olhou no relógio e tateou os bolsos à procura de alguma coisa. De lá tirou um estojo, que manuseou com cuidado sob o olhar curioso da senhora que tricotava. Ao abri-lo, foi possível enxergar um surpreendente número de pílulas e comprimidos de todos os tipos, cores, e tamanhos, numa visão que lembrava um catálogo de medicamentos.

Surpresa com o “arsenal” do simpático senhor que estava sentado ao seu lado, a senhora idosa, sem nem ao menos se dar conta, puxou conversa:

-Nossa! Quanta coisa.

Ele sorriu. Sua quase coleção de pílulas era uma espécie de pequeno orgulho hipocondríaco. Boa parte de sua aposentadoria era reservada para manter o estojo atualizado com as últimas novidades da medicina geriátrica. Se surpreendeu com o interesse repentino da senhora, mas não se incomodou. Pelo contrário: aquela era uma oportunidade perfeita para “se exibir”.

-Pois é. Aqui tem pílula para todos os gostos.

-Entendo. Tudo isso é seu?

-Sim. Tudo.

-Bacana.

-É meio mórbido, eu sei. Mas virou um hábito. Quando mais jovem tinha horror a remédios, mas conforme a idade foi chegando eles viraram meus companheiros. Me habituei, sabe?

Ela riu satisfeita. Ele achou aquilo lindo. Faziam décadas que nenhuma mulher ria assim de alguma coisa que ele tinha dito. E não havia deboche em sua gargalhada, podia sentir. Apenas satisfação. Contentamento. Não sabia explicar ao certo. Tinha apenas a certeza de que algo que tinha dito agradou a simpática senhora.

-Posso lhe confessar uma coisa? – Perguntou ela.

-Claro, por favor.

-Você não é o único a ter este hábito.

Para a surpresa do senhor, de dentro de uma bolsa que trazia, ela retirou uma caixa retrátil que, ao ser aberta, revelou uma variedade de pílulas e comprimidos ainda mais ampla que a que ele guardava em seu estojo. Estava tudo arrumado em pequenos compartimentos separados alfabeticamente. Organização absolutamente impecável. As cores das pílulas, variadas, tornavam a visão da caixa agradável a qualquer olhar, mas exerceram um fascínio ainda maior no senhor do estojo, que, boquiaberto, mal podia acreditar no que via.

-Nossa!

-Gostou?

-É... Incrível.

-Que bom que gostou. Essa caixinha aqui, modéstia a parte, é o meu orgulho.

-E eu que achava que era o único a ter uma variedade dessas. Só de olhar já deu para ver que você me superou.

-Imagina. Não diga isso. Já vi que você tem muitas coisas interessantes aí no seu estojo.

-É... Tem sim. Mas, se me permite, posso te fazer uma pergunta?

-Claro.

-Pra que serve esta vermelhinha?

-Hipertensão! É novidade. Mal chegou no país.

-Percebi. Não conhecia. Pra hipertensão eu tomo essa.

-Transparente... Nossa!

-Também é novidade. Dica do meu médico.

-Já viu essa? Três cores! Azul, amarelo e vermelho.

-Linda.

-Osteoporose.

-A minha pra osteoporose é bem simplesinha. Branca, redonda. Parece aspirina.

-Sei.

-E essa daqui? Roxa, grandona. Você tem?

-Tenho sim. Labirintite, certo?

-Isso! E pílulas diuréticas, você usa?

-Algumas. Gosto dessas verdes aqui.

-Eu também. Que coincidência! Tomo duas de uma vez.

- E essas amarelas e cinzas? São do que?

-Bronquite. Mas só tomo quando tenho crises, junto com um xarope.

-Eu, quando tive bronquite, tomava estas. Marrons.

-Conheço. Cheguei a tomar, mas não fizeram o efeito esperado. E me deram alergia!

-Alergia? Conhece esta? Resolve alergia de qualquer tipo.

-Não, nunca tinha visto.

-Eu só não me lembro do nome. Sou péssima para decorar essas coisas. Mas se quiser ficar com uma, talvez um farmacêutico saiba lhe dizer o nome certo.

-Não se preocupe. Meu médico descobre. Ele é especialista isso.

-E ele te incentiva a ir atrás de todos esses comprimidos?

-Não. Ele vive me dando bronca. Diz que apesar de eu precisar tomar um bocado de coisas, eu exagero.

-Conheço o tipo. Meu médico também é assim.

-Mas ele é novinho. Tem muito o que aprender ainda.

-É verdade. O meu diz que eu sou hipocondríaca e que isso é perigoso.

-Todos dizem isso. Mal saíram da faculdade, e querem palpitar. Mas eles se esquecem que viver, por si só, já é perigoso.

-É verdade. Eles me dão nos nervos.

-Nervos? Eu tenho um calmante aqui que é tiro e queda.

-Um de capsula preta?

-Esse mesmo!

-Já conheço. Meu favorito!

-E pra reumatismo? Toma algum?

-Tomo sim. Esse daqui, ó. Mandei fazer numa farmácia de manipulação.

-E é bom?

-Muito! Eu tomava um vermelho e...

-Vermelho e azul?

-Esse mesmo! Mas depois de um tempo, ele já não fazia o mesmo efeito de antigamente. Acabei recorrendo a uma farmácia de manipulação. Resolveu o problema.

-De farmácia de manipulação eu só tomo um que é para afinar o sangue. Faz maravilhas.

A conversa seguiu animada.Tinham encontrado um assunto em comum, um “hobbie” mútuo que serviu para lhes aproximar. A hipocondria, por mais incrível que pareça, também tinha suas vantagens.

-Tá vendo essa rosa, aqui? – Perguntou ele.

-Sim.

-Diabetes!

-É boa?

-Muito. Mudou minha vida!

-Vou atrás dessa. Eu tomo uma amarela, mas não estou satisfeita.

-Vai ser difícil de encontrar esta. Importada. Tenho uns esquemas para trazer.

-Poxa. Que pena.

-Mas eu tenho uma caixa extra lá em casa. Gostaria que eu lhe trouxesse?

-Mas não vai te fazer falta?

-Imagina. Já encomendei outras. Sempre deixo uma de reserva.

-Bem... Se não for incômodo, eu aceito sim.

-Não é incômodo algum, pode apostar.

-Poxa... Obrigada! Amanhã, trarei também minhas outras exclusividades. Se tiver alguma coisa que lhe interessar...

-Seria ótimo. Fiquei interessado em uma porção de coisas que me citou.

-Pois amanhã poderá conferir tudo.

-Que bom, que bom...

Ficaram se encarando, felizes, durante algum tempo. Por fim, constataram que já era tarde. Deram-se as mãos, sorridentes, prometendo que se reencontrariam no dia seguinte.

Foram para casa satisfeitos, com a certeza de que, mesmo depois de todos aqueles anos, ainda era possível encontrar boas surpresas pelo caminho.

O tempo, quem diria, não era tão cruel assim.