sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O fim

-Acabou, Lúcio.

-O que acabou?

-O namoro. Entre nós. Acabou.

-Peraí... Como assim? O que foi que eu fiz?

-Tudo! Você faz tudo. Tudo o que eu quero, tudo o que eu sonho... Tudinho! Você não me deixa faltar nada.

-E isso não é bom?

-Será que você não entende?

-Entender o quê?

-Você é bom demais pra mim.

-Ahhhh... Sem essa, vai? Seja franca comigo. A gente estava tão bem até ontem, e hoje você vem com esse papo? Algo aconteceu...

-É exatamente isso que você ouviu.

-Para com isso!

-É sério. Eu fiquei pensando ontem à noite, sabe? Lembrei do dia em que te conheci, das conversas que a gente teve, das nossas noites juntinhos...

-E...?

-Você guardou tudo. Você fez tudo. Agiu exatamente da forma que tinha prometido. Lembrou de cada detalhe de minhas frases. Foi totalmente fiel. Esforçou-se para conseguir me oferecer cada presente que eu disse sonhar um dia receber.

-E o que tem de ruim em ser assim?

-Nada, mas... Que tipo de homem faz isso?

-Alguém apaixonado, é claro!

-Não faz sentido. Eu já tive vários namorados, casinhos, paqueras... Nunca fui tratada assim, entende? Nunca me senti tão segura!

-E não é isso que toda mulher quer? Se sentir segura?

-De certa forma sim, mas no fundo é essa insegurança constante que nos prende, sabe? Aquela impressão de que poderemos ser avisadas por uma amiga a qualquer momento que o nosso namorado estava andando de mãos dadas com uma loira no shopping, de que ele vai esquecer do nosso aniversário de namoro, que vai chegar atrasado no nosso encontro pois não saiu de casa enquanto o jogo na TV não acabou, que vai nos dar uma caixa de bombons baratos no natal ao invés daquele perfume que a gente tanto deseja, que teremos que fingir um orgasmo já que ele pouco se importa se estamos ou não nos satisfazendo na hora da transa... É este medo, esta incerteza, que eu não tenho com você.

-Eu juro que não estou entendendo.

-Normal. Dificilmente entenderia.

-Joana, eu te amo!

-Acabou, Lúcio. Acabou.

No dia seguinte o Lúcio tentou explicar aos amigos os motivos de sua separação. Seus colegas sorriram, e com uma cara de “como você é inocente”, classificaram como previsível a atitude de sua ex-namorada. Também, onde já se viu isso? Tratar uma mulher daquele jeito, cheio de carinhos e mimos? O fim do relacionamento era mesmo só uma questão de tempo.

Mas o Lúcio, apaixonado, ainda tinha esperanças. Ia tentar marcar um encontro romântico com a melhor amiga da Joana. Quem sabe assim, sendo canalha a ponto de chamar para sair a maior confidente de sua ex-namorada apenas dois dias depois do fim do namoro, ele não conseguiria provar para ela que era digno do seu amor?

Pois é, Lúcio. Você finalmente entendeu.

Ídolo

Foi numa dessas festinhas infantis de um primo que a gente nunca sabe bem explicar de que lado da família pertence, repleta de crianças que você não faz a mínima ideia de onde são. Uma das jovens convidadas, do alto de seus sete ou oito anos, ouviu alguém comentado que o sujeito grandalhão que mastigava meia dúzia de salgadinhos ao lado da mesa – no caso, eu – era jornalista. Se aproximou, e puxou papo.

-Oi. – Disse sorridente.

-Olá. Tudo bem, moça?

-Uhum... É verdade que você é jornalista? – Questionou ela, com a mais fascinada das expressões.

Simulando uma modéstia que não condizia com meu estado de espírito no momento, afinal de contas nunca antes alguém tinha mostrado algum tipo de surpresa ou interesse com minha formação acadêmica, respondi com um ar quase heroico: “Sim, eu sou jornalista”. Ela sorriu satisfeita com a resposta, e juro que pude ver um brilho de legítima admiração em seus olhinhos curiosos.

-Poxa, que legal! É o primeiro jornalista que conheço.

-Você quer ser jornalista também?

-Sim, é o meu sonho.

-Pois tenho certeza que um dia você irá ser uma, se assim quiser. Com esforço e dedicação, você chega lá. – Disse eu, num tom solene, quase dramático, para a atenta menina.

-E em qual canal você aparece?

-Canal?

-De televisão. Em qual deles você trabalha?

-Bem, na verdade eu não trabalho na TV. Sou jornalista de jornal impresso, mas também faço matérias pra Internet...

-Então você não aparece na TV?

-Não.

-Ah, poxa vida... – Suspirou, decepcionadíssima, antes de se despedir sem nenhuma formalidade e voltar ao encontro do resto dos colegas de sua idade, me deixando ali, sozinho, na companhia de coxinhas e empadinhas.

Ela não disse mais nenhuma palavra, mas tenho certeza que, enquanto ia se afastando do tal rapaz jornalista, pensou “Era bom demais pra ser verdade”.