quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Ligação de réveillon

-Alô? ... É você, Elisângela? ... Ai minha filha, graças a Deus! Você não sabe a aflição que a gente estava por aqui. Você saiu no Natal pra ir à praia e não deu mais notícias! Seu pai estava quase chamando a polícia e... Peraí... Onde é que você está? ... Como? ... No aeroporto? ... Fazendo o que no aeroporto, Elisângela? ... Indo pra sua casa nova?! ... Que casa nova? ... Não brinca com isso Elisângela! Eu já estou velha. Meu coração não aguenta mais esse tipo de brincadeira! ... Como assim “está falando sério”? ... Conheceu um cara? ... Amor à primeira vista? ... Você casou, Elisângela??? ... Não brinque com isso, minha filha! ... Falando sério porra nenhuma!! Você não pode estar falando sério! ... Minha filha... Ô minha filha! Como é que você me faz isso? Todos esses anos de educação pra você me aprontar uma dessas? Eu vou morrer de desgosto, Elisângela!! ... Vá pra puta que pariu com esse papinho de “ano novo, vida nova”! Vida nova é o cacete!!! ... Você vai voltar pra casa agora, ou eu mando a polícia ir aí prender esse cretino que te está te iludindo! ... Bom moço? Ele casa contigo em menos de uma semana, te sequestra, está te levando pra morar em algum barraco por aí sem nem sequer vir aqui pra pedir sua mão e você quer que eu engula que ele é um “bom moço”? ... Tavinho é o nome dele, é? Ele está aí perto? ... Então fala pro Tavinho que se ele não te trazer de volta agora, a coisa vai ficar preta pro lado dele! ... Deixa de ser burra, Elisângela! Como é que ele vai te sustentar? Garanto que ele não tem nem onde cair morto. Aliás, nem você tem! Você nunca lavou uma peça de roupa na sua vida, Elisângela! Como é que você vai querer ser dona de casa agora? ... Quem não está entendendo a situação é você! Você é uma burra, uma tonta! Esse Zé Mané vai te passar pra trás e te botar pra trabalhar! ... Como é que você não quer que eu fique nervosa? Você tem ideia da besteira que está cometendo, Elisângela? ... Rapaz direito é o cacete! Se ele tivesse um pingo de caráter tinha aparecido aqui antes pra pedir tua mão em namoro. Casamento então, ele só pediria depois de um bom tempo. Mas é claro: ele só faria isso se ele não fosse um picareta que ilude moças tontas como você! Bem que dizem que Deus dá peito grande ou cérebro, nunca os dois! ... Não deu pra esperar? Por que, hein? Por acaso o cartório ia explodir? O Padre ia ser excomungado? Como é que não dava pra esperar pra se casar então, menina de Deus? ... Nem tente vir me explicar! Isso não se justifica por nada nesse mundo! ... Como? ... Herança? ... Pai falecido dono de multinacional? ... Milionário? ... Comunhão de bens? ... Morar em Paris? ... Ô, minha filha! ... Tadinho do Tavinho! ... É claro que agora eu entendo a situação! ... Você está certa. Amor sincero assim a gente não pode desprezar! ... Imagina, nem precisa se preocupar com seu pai. Eu explico tudo pra ele! ...Vá com Deus, Elisângela! ... E por favor, cuida bem do Tavinho! Essas viagens intercontinentais devem cansar bastante. Um rapaz direito e sério assim a gente não encontra todo dia! ... Está quase se atrasando? Então corre, filha. Você não pode perder esse voo por nada nesse mundo! ... Feliz ano Novo pra você também, minha filha amada! Pra você e pro Tavinho! ... E mande noticias assim que chegar lá, ok? ... Mamãe te ama, minha princesa! ... Beijos!

Texto publicado originalmente em 31 de dezembro de 2007.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Laranja

Presenciei o diálogo dias desses:

Caminhavam por uma das ruas do centro de Curitiba no fim de tarde, sem pressa, apreciando a paisagem, como duas turistas da própria cidade. Uma delas olhou durante algum tempo para o ponto de taxi ao lado da praça e comentou com um tom de inconformismo:

-Taxi laranja.

-Laranja! – Enfatizou a companheira de caminhada, como se tivesse percebido a mesma coisa, e compartilhasse de uma indignação semelhante.

-Onde já se viu?

-Só aqui.

-Tem tanta cor interessante por aí, e escolhem laranja. Laranja!

-Laranja não dá!

-Tudo menos laranja!

-Coisa cafona.

-Extremamente cafona.

-Bom mesmo é em Nova Iorque.

-Nova Iorque! – Repetiu a colega de caminhada, com entusiasmo.

-Taxi, lá, é amarelo.

-Amarelo é outra coisa.

-Muda tudo. Dá outra vida, outra cara.

-Seria outra cidade.

-Outra!

-So-fis-ti-ca-ção! Anos luz à frente!

-E nós de laranja. Pode?

-Lá é primeiro mundo, né amiga? Não dá pra competir.

-O dia que os taxis daqui forem amarelos... Vou te dizer, hein? A história será outra!

-Outro nível.

-Mas laranja...

-Laranja não dá!

-Não dá!

E seguiram seu caminho certas de que, com uma consultoria visual mais caprichada, até Curitiba tinha salvação.

O problema, quem diria, é o laranja.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Rotina

Todos os amigos, parentes e demais conhecidos eram unânimes: o Otávio era um grande cara, desses difíceis de encontrar por aí. Íntegro, trabalhador, bem humorado, compenetrado... Não faltavam adjetivos para definir o quanto ele era relevante naquilo que fazia.

No entanto, tão unânimes quanto as impressões à respeito do caráter e da competência do Otávio, eram também as preocupações quanto aquele que todos consideravam ser o grande defeito de sua personalidade: seu amor pela rotina.

O Otávio era obcecado em manter seu dia-a-dia com o mínimo de alterações possíveis. Para convencê-lo a passar no bar e bater um papo com os amigos antes de seguir para casa e ler o seu livro, dava trabalho. Ele alegava que tinha “muito a fazer”, e que sempre estava num capítulo importante de sua leitura.

Quando aceitava permanecer reunido com os amigos, era visível seu incômodo: ficava olhando sistematicamente para o relógio com cara de preocupado. Os mais observadores diziam que a cada minuto que passava era possível enxergar mais gotas de suor se formarem em sua testa, reação que eles creditavam ao medo que sentia de atrasar seus afazeres cotidianos. Quando decidia ir embora, sempre pouco tempo depois de ter chegado, se despedia apressado e corria o mais rápido que podia para o seu carro a fim de chegar logo em casa e colocar sua rotina em ordem.

Mas um dia, quem diria, o Otávio apareceu voluntariamente no encontro dos amigos com uma loira a tiracolo. E que loira! Era quase um exemplar digno de bienal. Boquiabertos, os amigos tentavam criar uma teoria minimamente plausível para explicar como um cara tão ocupado em manter uma rotina tinha achado tempo para arranjar uma namorada como aquela. Em particular, o Otávio contou que a tinha conhecido na lavanderia, e que se apaixonaram na hora. E, pasmem: de tão encantado, chegou até a esquecer o que ia fazer. Ainda segundo ele, a moça tinha apresentado um novo sentido para sua vida, uma perspectiva que jamais tinha experimentado antes.

Sentenciou: dali em diante, seria um novo homem.

De fato o Otávio tinha mudado: participava das bebedeiras dos amigos, aparecia nas peladas com os colegas de trabalho, saía nos fins de semana para pescar com os vizinhos, levava a “loira da sua vida” para jantar em restaurantes finos... Mas algo parecia fora do lugar.

O Otávio não era mais o mesmo. Podia ser só a falta de hábito em não vê-lo mais olhando para o relógio a cada instante, mas algo definitivamente tinha mudado. Suas gargalhadas não eram mais intensas como antes, seus comentários já não despertavam mais a mesma simpatia dos colegas, suas teorias já não geravam debates tão acalorados. Parecia cansado. Parecia frio. Parecia triste.

As coisas só foram mudar dias depois, quando o Otávio chegou atrasado à confraternização semanal com os amigos. Pediu uma cerveja, e disse que ficaria “só um pouquinho”. Durante os minutos que permaneceu, anunciou que tinha terminado com a “loira da sua vida”, nem ele sabia explicar o porquê. Sabia dizer apenas que se sentia bem, e achava que tinha tomado a decisão certa. Despediu-se apressado, olhando para o relógio, dizendo que precisava chegar logo em casa para terminar o livro que estava lendo, com uma alegria que há muito não se via.

Os amigos, satisfeitos, sorriram. O Otávio finalmente tinha se reconciliado com seu grande e verdadeiro amor: a rotina.

As coisas tinham voltado a seu devido lugar.

sábado, 3 de julho de 2010

Semântica

Quatro anos de casamento. Casal na cama. Preliminares sexuais rotineiras. Ela sussurra em seu ouvido, enquanto ele se concentra nos chupões no pescoço:

-Benzinho... Vamos tentar algo diferente hoje?

-Assistir o Animal Planet?

-Não... No sexo! Quero algo mais apimentado. Algo mais... Quente!

Ele pensou um pouco, confuso, enquanto ela mordiscava os lábios de forma insinuante e guiava suas mãos por seu corpo. Cogitou a hipótese de desligar o ar condicionado, mas logo abandonou a teoria.

-Alguma sugestão?

Ela sorriu.

-Eu estava pensando...

-Sim?

-Queria ouvir algo sacana. Uma sacanagenzinha bem gostosa. Que tal, hein?

Em silêncio, ele tentou imaginar o que passava pela cabeça da esposa. Já fazia tempo que o sexo entre eles não era sinônimo de criatividade, mas aquilo estava longe de ser um defeito para ele. Sempre foi horrível com improvisações. Odiava quando ela inventava essas histórias. Era um fã da rotina e se orgulhava disso. Gostava das coisas simples, à moda antiga. Dormiria de ceroulas se não estivesse tão fora de moda.

Ainda assim, resolveu atender à esposa.

-Sacanagem, é?

-Isso, meu gostosão. Quero que você fale muita sacanagem, bem baixinho, aqui no meu ouvido. Vou ficar completamente louca!

-Ok... Vamos tentar. – Disse ele pouco antes de “atacar” aos beijos sua mulher, visivelmente excitada com o novo exercício de criatividade.

-Fala meu gostoso... Fala...

-Tua mãe é uma pilantra... Ah, é! Piranha, piranha, piranha! Velha encrenqueira... Chata! – Emendou ele, já empolgado com a novidade, enquanto mordiscava a nuca da esposa.

-Como é que é?

-Aquela bruxa velha... Safada! – Continuou o rapaz, sem se dar conta da surpresa de sua mulher.

Demorou um bocado para que os dois voltassem a se falar depois do episódio. Ela estava escandalizada com as ofensas brutais desferidas pelo marido, e ele inconformado com a postura da esposa, alegando em sua defesa que “foi ela quem tinha começado”.

No fim das contas fizeram as pazes, mas juraram nunca mais inventarem novidades na cama. Pelo menos não antes de um detalhado planejamento técnico, que envolvia um debate sobre o que seria permitido ou não, e de uma apresentação em Power Point pra deixar tudo o mais esclarecido possível.

Pois é... Até sacanagem tem limite.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Devaneios empíricos sobre o futebol e suas vertentes supostamente filosóficas – Fim de Copa do Mundo

Hipótese 1: Brasil sagra-se campeão mundial.

-Le-le-ô, le-le-ô, le-le-ô… Brasil!

-É cam-pe-ão! É cam-pe-ão!

-É hexa, porra!

-90 milhões em ação… Pra frente Brasil… Salve a seleção!

-Que Copa, hein?

-Espetacular, espetacular…

-Chuuupa, Maradona.

-Melhor que o time de 70.

-Será?

-Felipe Melo botava o Pelé no bolso. Craque.

-E o Dunga?

-Herói. Mandou a Globo calar a boca, e montou um timaço. Sempre botei fé nele.

-Esse é macho. Se fosse o técnico de 2006, já seríamos Heptas!

-O Parreira era um cagão!

-Pode crer.

-Pena que acabou.

-Pois é. Copa do Mundo é bom demais.

-Por mim, o ano poderia acabar agora.

-Mas mudando um pouco de assunto, galera. E as eleições? Dilma, Serra ou algum outro?

-E eu lá to interessado em eleição, rapaz? Vira essa boca pra lá.

-É... Larga mão de ser chato. Eu quero mais é que eles se ferrem.

-Mas é importante escolher bem. O país tá cheio de corrupto e...

-Alguém traz uma cerveja aqui pra calar a boca dele, por favor!

-Que cara chato, porra!

-É, cara... Você acha que alguém tá ligando pra isso? Na hora eu escolho. O importante mesmo agora é comemorar.

-Agora, e nos próximos meses...

-Escolhe no cara-ou-coroa.

-Boa ideia.

-O importante é que deu Brasil. O resto é detalhe.

-Viva o Brasil!

-Euuuuu... Sou brasileirooooo... Com muito orgulhooooo... Com muito amooooooor!

***

Hipótese 2: Brasil é eliminado.

-Puta que pariu!

-Ti-mi-nho! Ti-mi-nho!

-Esse hexa não vai chegar nunca!

-Puta que pariu... A seleção é a vergonha do Brasil!

-Que Copinha, hein?

-Ridícula, Ridícula…

-E o Maradona ainda vai ficar pelado... Pelado!

-É a pior seleção que eu já vi.

-Será?

-Claro! Queria o quê com o Felipe Melo de volante? Deu sorte de classificar nas eliminatórias!

-E o Dunga, hein?

-Filho de uma puta. Ficou arranjando encrenca com a imprensa, ao invés de montar um time que prestasse. Aquele, nunca me enganou.

-Cagão de merda. Conseguiu fazer pior do que foi feito em 2006.

-Se tivesse deixado o Parreira, isso não teria acontecido!

-Pode crer.

-Graças a Deus que o sofrimento acabou.

-Pois é. Essa porcaria de Copa do Mundo não acabava nunca.

-Por mim, o ano poderia acabar agora. Tem que recomeçar do zero.

- Mas mudando um pouco de assunto. E as eleições? Dilma, Serra ou algum outro?

-E eu lá to interessado em eleição, rapaz? Não está vendo o meu estado emocional?

-É... Larga mão de ser chato. Eu quero mais é que eles se ferrem.

-Mas é importante escolher bem. O país tá cheio de corrupto e...

-Alguém traz uma cachaça aqui pra calar a boca dele, por favor!

-Que cara chato, porra!

-É, cara... Você acha que alguém tá ligando pra isso? Na hora eu escolho. Agora tá todo mundo completamente arrasado.

-Agora, e nos próximos meses...

-Escolhe no cara-ou-coroa, e para de encher o saco.

-Boa ideia.

-Depois da humilhação que a gente passou, nada poderia ser pior. O resto é detalhe.

-Foda-se essa merda de país!

-Vergonhaaaaaa... Vergonhaaaaaa... Vergonhaaaaaa... Time sem vergonha!