sábado, 26 de novembro de 2011

Ódio

Conheceu-a numa festa. Tinham uma amiga em comum que os apresentou, declarando sem receio que, para ela, “a dupla combinava”. Ele não achou. Não era feia, mas tinha algo nela que tinha lhe despertado uma intolerância ímpar, mesmo sem qualquer motivo aparente. Não era nem antipatia. Odiou-a de uma vez.

Semanas mais tarde, por uma dessas ironias do destino, descobriu que não só trabalhavam na mesma empresa, como dividiriam o mesmo setor. Pior: os cargos eram parecidos, e exigiam colaboração mútua.

A convivência diária só fez aflorar ainda mais raiva.

Odiava o jeito que ela lhe dizia “bom dia” pela manhã. Odiava a forma como sua voz esganiçada tomava conta de todo o ambiente inundando seus ouvidos. Odiava seus comentários a respeito de qualquer coisa, fosse um assunto ligado ao trabalho ou não. Odiava sua pretensão oculta, seu ego inflado que fazia questão de esconder de todos com falsos sorrisos inocentes. Odiava a maneira paciente com que lhe dava conselhos técnicos sobre a empresa, tratando-o como um ignorante qualquer. Odiava o seu olhar moralista que parecia sempre fazer questão de analisá-lo após cada atitude. Odiava a simpatia complacente e consoladora que manifestava, quase que por ironia, após suas eventuais falhas e deslizes. Odiava suas felicitações efusivas, obviamente falsas, após cada um de seus acertos. Odiava a maneira com que ela agia nas negociações do trabalho, dando sempre a entender que não confiava nele. Mas, principalmente, odiava ouvir dos demais colegas que eles faziam uma grande dupla, e que a empresa vinha conseguindo ótimos resultados graças ao esforço e entrosamento deles... Odiava ter que dividir os seus méritos com aquela mulher.

Um dia (por pura formalidade, deduziu) ela o convidou para um encontro com alguns conhecidos. Sentiu náuseas quando ouviu a proposta. Odiava pensar na hipótese de ter que transformar sua noite de descanso numa tortura semelhante a que tinha todos os dias durante o horário de trabalho. No entanto, odiava ainda mais dar a ela a oportunidade de classificá-lo, mesmo que pelas costas, como “um chato que vivia enclausurado em casa”.

Aceitou o convite.

Encontraram-se num bar ele, ela e uns conhecidos. Odiava ter de escutar seus comentários fúteis. Odiava a forma irônica com que defendia seus argumentos, quase que desmoralizando seus interlocutores após cada observação. Odiava o sorriso entreaberto de satisfação que manifestava após cada colocação bem sucedida, numa clara demonstração de sua falta de modéstia.

Entediado, tentou puxar assunto com os outros colegas de mesa, mas não conseguiu. Odiava a forma como ela falava alto e monopolizava as atenções. Tentou deixa-la sem argumentos, ousou questiona-la. Foi vencido. Odiava admitir que ela tinha se mostrado mais esperta que ele. Lhe odiava ainda mais por isso.

Sem ter o que fazer, passou a observá-la, tentando encontrar alguma coisa digna de empatia, mesmo apostando com si mesmo que isso era impossível.

Não encontrou.

Odiava o seu cabelo. Liso, bicolor e cheio de pontas duplas. Tão opaco quanto os seus olhos negros. Odiava a geometria de seu rosto, que era plano, quase que esquadrinhado numa prancheta. Odiava seu corpo esguio, sem grandes atrativos exceto os seios, cujo tamanho avantajado destoava do resto de seu corpo. Gostava de seios, mas odiava corpos desproporcionais. Odiava a forma com que caminhava, numa marcha semi-ritmada que se fosse de outra pessoa talvez que despertasse risos, mas que no caso dela só lhe gerava ainda mais raiva. Odiava a forma com que usava as mãos de forma expansiva e escandalosa para gesticular enquanto falava. Só não odiou o fato de constatar que não existia nada nela que não lhe irritasse. Odiaria descobrir que estava errado.

Já em casa, tentou dormir, mas o sono não vinha. A voz chata da colega de trabalho ecoava em sua cabeça como um arranhar de unhas num quadro negro. Odiava lembrar do dia horrível e humilhante que tinha tido graças a ela. Odiava imaginar que teria que encontrá-la novamente pela manhã...

Ódio. Puro e simples ódio.

Perguntou a si mesmo porque ela o incomodava tanto. Sua intolerância transcendia os limites que ele julgava “normais”. Odiava sua personalidade, sua aparência, seus conhecimentos... Sentia-se fraco diante de tanta repulsa.

Refletiu, refletiu e refletiu.

Concluiu que nunca tinha tido um sentimento tão forte, mesmo ruim, por ninguém antes. Odiá-la, de certa forma, passou a dar um sentido para sua vida.

Devia ser amor.

Namoraram, casaram-se e tiveram três filhos... Mas ele continuou odiando-a secretamente durante todos aqueles anos. Odiava sua comida, odiava o sexo com ela, odiava acordar ao seu lado todos os dias, odiava ver a forma como ela educava os filhos, odiava ouvir suas histórias, odiava dividir um mesmo teto com ela...

E, acima de tudo: odiava admitir, mas faziam um belo casal.


Texto publicado originalmente em 7 de julho de 2008.

sábado, 12 de novembro de 2011

Temperatura

Como toda boa discussão, aquela começou durante uma conversa de bar aparentemente inofensiva entre dois amigos. O Beto reclamou do calor. O Manoel disse que “estava gostoso”.

-Sem essa, vai. Calor demais é insuportável.

-Eu adoro. Por mim, era verão o ano inteiro.

-Vira essa boca pra lá. Se essa onda de calor não passar, eu pego minhas coisas e me mando pra Sibéria.

-Deixa de ser exagerado, vai.

-É sério. Não tem nada melhor que o frio.

-Deus do Céu! Que mau gosto.

-Pensa comigo, vai: aquela manhã de geada em pleno domingo... Você debaixo das cobertas... Tem sensação melhor que essa?

-Tem. Praia, 40°C e uma cerveja na mão.

-Nhé...

-Além do mais, não tem época pior pros olhos masculinos. As mulheres saem de casa parecendo astronautas. Para se observar um naco de pele, dá trabalho. É cachecol, luva, sobretudo... Nem uma barriguinha dá pra enxergar.

-Mas é no frio eu elas ficam realmente quentes. Experimente levar uma moça num dia frio pra sua casa ou pra um bom restaurante. É só abrir um bom vinho que o universo se encarrega do resto.

-Se no inverno elas ficam quentes, no verão elas fervem, amigo.

-Há controvérsias.

-Quais?

-O frio é sedutor.

-Quem disse?

-Eu disse. As melhores mulheres que já tive foram conquistadas com a ajuda do termômetro. No verão, foram poucas.

-Isso é óbvio, né? Você é do tipo que não tira o agasalho pra nada. Como quer seduzir alguém se vive encasacado? Já vi você indo para a praia de ceroulas.

-Engraçadinho.

-É sério. O frio, de bom, não tem nada. Bota isso na cabeça.

-O frio é aconchegante.

Foi aí que a situação começou a degringolar, quando o Manoel, inocentemente, retrucou depois de filosofar um pouco sobre o assunto:

-O calor é aconchegante. O frio não. Quando o dia está frio e você põe uma coberta, é o calor que te faz sentir prazer, não o frio. Além do mais, do ponto de vista da física, o frio não existe. O que existe é a ausência de calor. Ou seja... Tecnicamente, você diz gostar de algo inexistente.

Um breve e constrangedor silêncio perdurou durante alguns minutos. Logo depois o Beto, com uma cara repreensiva, pegou suas coisas e foi embora sem se despedir.

Dias depois, quando o Manoel foi procurar o velho amigo para entender o que tinha feito de errado, ouviu dele que sua atitude tinha sido profundamente indelicada: jamais, sob hipótese alguma, se deve retrucar um amigo numa conversa de bar com um argumento científico e/ou filosófico. Além de desleal, tal gesto demonstraria uma profunda falta de respeito à natureza do debate de botequim, cujo objetivo central é, invariavelmente, não chegar a lugar nenhum.

-Perdoaram-se, e marcaram de se reencontrar no bar já no dia seguinte para matar as saudades. Mas, dessa vez, sem ciência envolvida.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Coluna social

Senhores,

Foram anos de esforço até este dia chegar. Uma vida inteira de trabalho, trocadilhos, e frases supostamente engraçadas que finalmente foram recompensadas...

 Sim, eu virei personagem de tirinha. \o/

A autora da ideia foi minha amiga/ídala/disc-jockey/esposa Magô, uma das cartunistas mais legais e talentosas que eu conheço (Ela é a única, ok... Mas isso é só um detalhe). Depois de uma noitada de conversa regada a dezenas de trocadilhos e planos de um casamento épico, ela gentilmente me incluiu (palavras dela) como ANTAgonista de uma de suas séries, a TPM.exe. Pensem num sujeito que ficou contente...

O fato é que a tirinha saiu, e apesar de eu estar bonitinho demais no desenho, o que obviamente trata-se de um equívoco, o fato é que tá beeeeeeeeem legal.

Continuo sendo um escritor frustrado e um jornalista mendigo, mas não me sinto mais um completo fracasso. Minha vida finalmente ganhou um sentido. Snif...

Quem quiser ver o conhecer mais do trabalho da “minha criadora” pode acessar o seu blog ou o seu site oficial (aliás, fui eu que aprovei o playlist, só pra constar).


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O Crítico

O Dias era conhecido no trabalho por sua notória coleção de revistas masculinas. Aliás, mais do que isso: ele semanalmente levava ao escritório suas novas aquisições e as “compartilhava” com os colegas, que durante a pausa para o cafezinho literalmente se amontoavam para observar as donzelas em poses sugestivas e reveladoras. Já era um ritual tão tradicional, que tinha vencido a resistência e os protestos das representantes femininas do local, que tinham cansado de afirmar que a alegação dos rapazes da repartição de que “o interesse era apenas nas entrevistas” era falso e pouco convincente, e que aquela imoralidade tinha que acabar. Mas os homens tinham o aval do seu Ari, o chefe, que não só aprovava a iniciativa, como era um dos mais empolgados quando o Dias chegava com as revistas embaixo do braço.

Naquela semana, aliás, o Dias tinha chegado com um sorriso sugestivo no escritório quando trazia as revistas. Aos que notaram a empolgação do colega, ele apenas adiantou que numa das publicações tinha uma loira que, segundo suas palavras, era “teste pra cardíaco”.

Na hora combinada, um batalhão de marmanjos rodeava a mesa do cafezinho, esperando pela “loira do Dias”, inclusive o seu Ari, que de tão empolgado antes de ir ao encontro dos rapazes passou perfume e penteou os bigodes... Nem ele sabia explicar ao certo o porquê. 

Quando o Dias chegou e entregou à revista aos cuidados dos colegas, os comentários empolgados começaram a surgir em profusão.

-Espetáculo! Isso é mulher pra vida toda. – Disse o Ferreira, que invariavelmente fazia sempre a mesma observação todas as semanas.

-Olha esse piercing, olha esse piercing! – Bradou o Inácio num misto de escândalo e empolgação, depois de esfregar os próprios olhos para certificar-se que não estava vendo mais do que havia na foto.

-Loirão... É de babar! – Resumiu o Pedroca, sempre o mais econômico e sutil nas ponderações.

-Se eu pego ela... – Sussurrou o Janjão, enquanto gesticulava vagamente com as mãos, descrevendo para a fértil imaginação dos colegas tudo o que ele faria se tivesse a moça da revista ao alcance.

Mas nem todos pareciam tão fascinados assim. O Vasconcelos, recém chegado no escritório e ainda se acostumando aos hábitos locais, observava as imagens com um interesse diferenciado, mais detalhista, embora aparentemente não muito empolgado. Folheou quatro ou cinco páginas, cuidadosamente antes de sentenciar:

-Que mau gosto. Isso lá são locações pra fotos? Já vi coisa mais interessante em novela mexicana. E que poses são essas? Cadê a estética disso? Horríveis! Vulgar é pouco...

Antes de prosseguir com sua avaliação e discorrer analiticamente sobre o que chamaria de “iluminação desastrosa digna de boate de beira de estrada”, o Vasconcelos percebeu que era encarado sob olhares escandalizados do resto dos colegas. Subitamente se deu conta da mancada. Onde já se viu achar defeito em mulher, ainda mais “com tudo à mostra”? Percebendo o tamanho do risco social que corria, folheou mais algumas páginas e sentenciou com um ar bonachão, um tanto forçado:

-Se bem que... Baita gostosa, hein! Pegava. Pegava de jeito.

A afirmação, mesmo que tardia, tranquilizou um pouco o pessoal, principalmente o Dias, que estava quase ofendido com o senso estético exagerado do novo colega. De tão chocado, ele chegou a cogitar inclusive a hipótese de parar com a sessão de apreciação semanal, mas tamanho foi o apoio moral que recebeu dos amigos do escritório, que resolveu continuar. O seu Ari, um dos mais indignados com o deslize, respirou aliviado, e fez questão de dar uma indireta daquelas no Vasconcelos...

-Abre o olho, rapaz, abre o olho...

E o Vasconcelos ali, encolhido em sua mesa e ainda consternado com a mancada, comentou pra si mesmo:

-Esse bom gosto ainda te mata. Te mata!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Conspiração

A noite era silenciosa, e seu caminhar era calculado. Ninguém por perto. A luz fraca do poste mal conseguia projetar sua sombra na calçada. Ainda assim, ao longe, conseguiu distinguir um vulto no banco. Era seu contato, lhe esperando como o combinado.

Sentou apressado e não fez cerimônia:

-E aí? Como é que é? Quando a coisa vai começar?

-Calma.

Tinha uma voz grave, mas segura. Um rosto marcado, e uma expressão amorfa como o de quem já tinha visto, literalmente, tudo e se surpreendido com pouca coisa. Não era a toa que se chamava Universo.

-Como, “calma”? A gente tinha feito um acordo, lembra? –Bradou o rapaz, exaltado.

Mas o Universo manteve-se impávido. Com o mesmo tom de voz seguro, advertiu:

-Seja discreto. Quer que a cidade inteira desconfie do nosso encontro?

O rapaz respirou fundo, e fechou os olhos tentando se convencer de que não valia a pena ficar enfurecido. Acalmou-se.

-Ok. Mas e aí? Como fica nosso acordo?

-Fica como o combinado. Vai sair.

-Mas eu não tenho visto resultados... E já faz tempo que a gente conversou.

O Universo sorriu, irônico, sem sequer se dar ao trabalho de observar o rosto aflito do rapaz.

-E você acha mesmo que isso acontece do dia pra noite? Acha?

-Eu sei que não, mas...

-Você não tem ideia do tamanho disso, cara. Sequer passa pela sua cabeça o grau de complexidade envolvido nesta operação.

O rapaz se conteve depois do súbito tom repreensivo adotado pelo Universo. Não imaginava que teria que esperar tanto. Sempre tinha sido apressado por natureza, impulsivo. Talvez por isso mesmo tenha tido a ideia de propor uma conspiração, visando lhe favorecer. Era irônico agora ter que esperar. Mas, ao mesmo tempo, compreendia a situação. O Universo era um cara ocupado com zilhões de coisas pra fazer, tarefas infinitas. Sua agenda evidentemente devia ser apertada. Isso sem contar que era algo “feito por debaixo dos panos”, o que exigia certo grau de discrição. Mas ainda assim não conseguia evitar a ânsia crescente pelo seu sucesso.

-Ok. Talvez eu esteja sendo apressado. Mas é que faz tanto tempo que você prometeu me ajudar...

O Universo achou graça do “faz tanto tempo”. Alguém vindo reclamar sobre o tempo justo com ele... Haja ironia. Pensou em rir, ou em fazer um comentário sarcástico do tipo “o Einstein disse que isso é relativo”, mas julgou que era meio inútil. Ia soar como provocação. Naquela altura já estava quase arrependido de ter aceitado o esquema proposto. Odiava impacientes. Ainda assim, resolveu usar um tom mais paternal:

-Eu vou te ajudar, calma. Mas isso não acontece do dia pra noite. Tenho falado com meus contatos, analisado meios de fazer acontecer... Vai dar certo, relaxa.

O rapaz pensou em pedir prazo, em apresentar contrapropostas, mas se sentiu satisfeito. Concluiu que ele de fato estava empenhado no acordo. Além do mais era uma operação difícil, por mais que sua pressa o fizesse ignorar isso na maior parte das vezes. Sendo assim, deu-se por satisfeito, momentaneamente.

-Tá. Ok. Confio em você.

-Já era hora.

-Mas e aí? Como é que a gente faz se precisarmos nos ver de novo?

-Eu te encontro, quanto a isso não se preocupe. Fontes não me faltam.

-Ok.

-Agora, se me der licença, vou indo. Espere aqui no banco alguns minutos e saia. Certifique-se que não tem ninguém te seguindo, como te ensinei.

-Tudo bem. E, ei... Obrigado de novo, viu?

O Universo fez um leve aceno com a cabeça ainda sem olhar para a face do rapaz. Se levantou, ergueu a gola do sobretudo negro, e caminhou na direção Oeste sem pressa, se tornando aos poucos apenas um vulto em meio as luzes escassas dos postes.

No banco, esperando para sair sem levantar suspeitas, o rapaz suspirou:

-E eu que achava que esta história do universo conspirar a meu favor seria mais fácil...