A noite era silenciosa, e seu caminhar era calculado. Ninguém por perto. A luz fraca do poste mal conseguia projetar sua sombra na calçada. Ainda assim, ao longe, conseguiu distinguir um vulto no banco. Era seu contato, lhe esperando como o combinado.
Sentou apressado e não fez cerimônia:
-E aí? Como é que é? Quando a coisa vai começar?
-Calma.
Tinha uma voz grave, mas segura. Um rosto marcado, e uma expressão amorfa como o de quem já tinha visto, literalmente, tudo e se surpreendido com pouca coisa. Não era a toa que se chamava Universo.
-Como, “calma”? A gente tinha feito um acordo, lembra? –Bradou o rapaz, exaltado.
Mas o Universo manteve-se impávido. Com o mesmo tom de voz seguro, advertiu:
-Seja discreto. Quer que a cidade inteira desconfie do nosso encontro?
O rapaz respirou fundo, e fechou os olhos tentando se convencer de que não valia a pena ficar enfurecido. Acalmou-se.
-Ok. Mas e aí? Como fica nosso acordo?
-Fica como o combinado. Vai sair.
-Mas eu não tenho visto resultados... E já faz tempo que a gente conversou.
O Universo sorriu, irônico, sem sequer se dar ao trabalho de observar o rosto aflito do rapaz.
-E você acha mesmo que isso acontece do dia pra noite? Acha?
-Eu sei que não, mas...
-Você não tem ideia do tamanho disso, cara. Sequer passa pela sua cabeça o grau de complexidade envolvido nesta operação.
O rapaz se conteve depois do súbito tom repreensivo adotado pelo Universo. Não imaginava que teria que esperar tanto. Sempre tinha sido apressado por natureza, impulsivo. Talvez por isso mesmo tenha tido a ideia de propor uma conspiração, visando lhe favorecer. Era irônico agora ter que esperar. Mas, ao mesmo tempo, compreendia a situação. O Universo era um cara ocupado com zilhões de coisas pra fazer, tarefas infinitas. Sua agenda evidentemente devia ser apertada. Isso sem contar que era algo “feito por debaixo dos panos”, o que exigia certo grau de discrição. Mas ainda assim não conseguia evitar a ânsia crescente pelo seu sucesso.
-Ok. Talvez eu esteja sendo apressado. Mas é que faz tanto tempo que você prometeu me ajudar...
O Universo achou graça do “faz tanto tempo”. Alguém vindo reclamar sobre o tempo justo com ele... Haja ironia. Pensou em rir, ou em fazer um comentário sarcástico do tipo “o Einstein disse que isso é relativo”, mas julgou que era meio inútil. Ia soar como provocação. Naquela altura já estava quase arrependido de ter aceitado o esquema proposto. Odiava impacientes. Ainda assim, resolveu usar um tom mais paternal:
-Eu vou te ajudar, calma. Mas isso não acontece do dia pra noite. Tenho falado com meus contatos, analisado meios de fazer acontecer... Vai dar certo, relaxa.
O rapaz pensou em pedir prazo, em apresentar contrapropostas, mas se sentiu satisfeito. Concluiu que ele de fato estava empenhado no acordo. Além do mais era uma operação difícil, por mais que sua pressa o fizesse ignorar isso na maior parte das vezes. Sendo assim, deu-se por satisfeito, momentaneamente.
-Tá. Ok. Confio em você.
-Já era hora.
-Mas e aí? Como é que a gente faz se precisarmos nos ver de novo?
-Eu te encontro, quanto a isso não se preocupe. Fontes não me faltam.
-Ok.
-Agora, se me der licença, vou indo. Espere aqui no banco alguns minutos e saia. Certifique-se que não tem ninguém te seguindo, como te ensinei.
-Tudo bem. E, ei... Obrigado de novo, viu?
O Universo fez um leve aceno com a cabeça ainda sem olhar para a face do rapaz. Se levantou, ergueu a gola do sobretudo negro, e caminhou na direção Oeste sem pressa, se tornando aos poucos apenas um vulto em meio as luzes escassas dos postes.
No banco, esperando para sair sem levantar suspeitas, o rapaz suspirou:
-E eu que achava que esta história do universo conspirar a meu favor seria mais fácil...
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Ídolo
Foi numa dessas festinhas infantis de um primo que a gente nunca sabe bem explicar de que lado da família pertence, repleta de crianças que você não faz a mínima ideia de onde são. Uma das jovens convidadas, do alto de seus sete ou oito anos, ouviu alguém comentado que o sujeito grandalhão que mastigava meia dúzia de salgadinhos ao lado da mesa – no caso, eu – era jornalista. Se aproximou, e puxou papo.
-Oi. – Disse sorridente.
-Olá. Tudo bem, moça?
-Uhum... É verdade que você é jornalista? – Questionou ela, com a mais fascinada das expressões.
Simulando uma modéstia que não condizia com meu estado de espírito no momento, afinal de contas nunca antes alguém tinha mostrado algum tipo de surpresa ou interesse com minha formação acadêmica, respondi com um ar quase heroico: “Sim, eu sou jornalista”. Ela sorriu satisfeita com a resposta, e juro que pude ver um brilho de legítima admiração em seus olhinhos curiosos.
-Poxa, que legal! É o primeiro jornalista que conheço.
-Você quer ser jornalista também?
-Sim, é o meu sonho.
-Pois tenho certeza que um dia você irá ser uma, se assim quiser. Com esforço e dedicação, você chega lá. – Disse eu, num tom solene, quase dramático, para a atenta menina.
-E em qual canal você aparece?
-Canal?
-De televisão. Em qual deles você trabalha?
-Bem, na verdade eu não trabalho na TV. Sou jornalista de jornal impresso, mas também faço matérias pra Internet...
-Então você não aparece na TV?
-Não.
-Ah, poxa vida... – Suspirou, decepcionadíssima, antes de se despedir sem nenhuma formalidade e voltar ao encontro do resto dos colegas de sua idade, me deixando ali, sozinho, na companhia de coxinhas e empadinhas.
Ela não disse mais nenhuma palavra, mas tenho certeza que, enquanto ia se afastando do tal rapaz jornalista, pensou “Era bom demais pra ser verdade”.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Teoria do caos
Exercício de compreensão do mundo. Imagine dois indivíduos quaisquer, ambos com pontos de vista diferentes. Os assuntos de que discordam são totalmente irrelevantes. Eles podem estar falando sobre absolutamente qualquer tema, seja algo ligado à política, religião, economia, relações internacionais ou sobre a simetria dos peitos de uma personalidade famosa qualquer clicada recentemente por alguma revista masculina, não importa. O relevante mesmo é saber que ambos têm opiniões divergentes sobre o mesmo assunto.Para facilitar o entendimento do diálogo, vamos diferenciar os sujeitos como “Fulano” e “Beltrano”, muito embora, na prática, eles possam ser substituídos por qualquer ser humano dito comum, tal como eu ou você.
-Eu discordo da sua opinião. – Diz o Fulano, exaltado.
-Sério? Bem... É um direito seu. – Responde, calmamente, o Beltrano.
-Você está errado.
-Respeito seu ponto de vista.
-Você não devia pensar desta maneira. É errado.
-Isso você já disse.
-Então mude de opinião.
-Não dá. Não posso ir contra o que eu acredito. Mas posso debater o assunto, e, se for convencido por meio de bons argumentos, posso mudar de opinião. Nada me impede.
-Mas você está errado. Tem que mudar.
-Não necessariamente. Podemos viver tendo pontos de vista diferentes, não há problema.
-Claro que tem problema.
-E qual é o problema?
-O problema é que você está errado.
-Por quê?
-Porque está, ué.
-Sim, mas quais são seus argumentos para afirmar isso?
-Não preciso de argumentos. O que é certo é certo.
-Mas quem disse que você está certo?
-Todos dizem que eu estou certo.
-Não é bem assim. Há muita gente por aí que concorda comigo.
-Mas eles não contam.
-Por que não?
-Porque eles estão errados.
-Ora... Isso é ridículo.
-É claro que não é.
-Cara, vem cá... Eu não estou pedindo pra você mudar de opinião. Sério. Acho válido e saudável existirem pessoas por aí que tenham pontos de vista diferentes, independentemente do assunto. O debate, o confronto crítico e racional de ideias, é um processo saudável. Eu não preciso concordar com você, e nem você concordar comigo para que possamos viver em harmonia, respeitando um ao outro. Entende o que eu quero dizer?
-Creio que entendo, sim.
-E o que acha disso?
-Acho que você está errado, e que deve mudar de opinião.
-Ok, eu desisto.
-Previsível.
-Previsível? Por quê?
-Quem não tem argumentos, foge. Simples.
Triunfante, o “Fulano” deixa o “Beltrano” sozinho, enquanto ele aparentemente tenta entender ao certo a situação que acabou de presenciar, ou pegar qualquer objeto mais próximo para atirar na cabeça do infeliz a fim de amenizar sua raiva. O que for mais fácil.
O “Fulano” ainda desabafa em voz alta:
-E depois dizem que não entendem o porquê do mundo estar do jeito que está. Falta diálogo, gente. Será que ninguém percebe?
quinta-feira, 31 de março de 2011
Enólogos
Por uma destas estranhas coincidências do destino que só acontecem em crônicas ruins, romances e filmes de gosto duvidoso, o Nathanael e a Cláudia, dois solitários faixa-preta, resolveram transitar ao mesmo tempo pelo corredor de vinhos do supermercado, depois de anos ignorando solenemente a existência de tal departamento. Curiosidade pura, já que não tinham a menor intimidade com o assunto.Tatearam aleatoriamente a prateleira durante alguns minutos até que, distraídos, trombaram enquanto tentavam alcançar simultaneamente uma garrafa de tinto português, que foi contida a tempo pelo Nathanael antes de cair. Alívio mútuo.
Passado o susto, rindo nervosamente, se apresentaram. Deram suas versões do incidente entre sorrisos desajeitados e tímidos, felizes por terem evitado o “desastre”.
Falaram de banalidades, tentando achar algum motivo digno pra seguirem conversando. Tinham simpatizado um com o outro, não dava pra esconder. Mas eram pragmáticos, e faltava assunto. Até que a Cláudia lembrou do motivo básico que tinha feito eles, literalmente, se trombarem: o corredor de vinhos.
-E então? Gosta de vinhos? – Perguntou.
No impulso, o Nathanael respondeu:
-Muito! Não vivo sem. Sou um profundo apreciador.
Se chocou com a própria resposta. “Profundo apreciador”... De onde tinha tirado aquilo? Não entendia nada do assunto. Era do tipo que não sabia diferenciar “seco” de “tinto”. Queria apenas ter um motivo pra seguir conversando e impressionar a moça simpática.
Ela se arrependeu da pergunta. Concluiu que deveria ser a única pessoa do mundo que perderia tempo observando rótulos de uma bebida que pouco tinha tomado e que, no fundo, nem gostava. Era óbvio que o rapaz entendia do assunto, ou então não estaria ali. Ainda assim, se sentiu brevemente surpresa com a resposta. Sempre quis conhecer um homem que entendesse de vinhos. Parecia ser algo tão romântico. No entanto, agora se sentia pressionada. Evidentemente tratava-se de um rapaz sofisticado... Um enólogo, vejam só! Era outro nível. Não podia ficar atrás.
-Pois eu também adoro vinhos. Conheço um pouquinho do assunto... – Comentou a Cláudia, usando um tom de voz que dava a entender que o “pouquinho”, na verdade, era muito.
O Nathanael sorriu, mas estava em pânico. E agora? O que fazer? A Cláudia também se deu conta de que era arriscadíssimo fingir-se entendida de um assunto que não tinha nenhuma intimidade, ainda mais na frente de um especialista. Suavam frio. Sentiram-se prestes a serem descobertos.
Mas concluíram que, naquela altura, era tarde para voltar atrás. Teriam que levar a farsa até as últimas consequências.
-Do que mais gosta? – Perguntou o Nathanel, enquanto tentava arranjar tempo pra bolar um plano capaz de lhe fazer sair ileso da situação.
-Tenho um fraco pelos franceses. – Disse a Cláudia, ensaiando um ar nostálgico, buscando na memória cada gota de informação armazenada em sua cabeça sobre o assunto.
-Ah, os franceses... Divinos, divinos! Mas, para mim, nada substitui um bom tinto chileno.
-Tomei um chileno incrível, certa vez. Chamava-se... Ehhh... El Santiago! Isso, El Santiago. O nome me fugiu por um momento, desculpe.
Ele se assustou. A moça sabia até citar nome de vinho chileno. Obviamente manjava mesmo do assunto.
Ela sentia o coração na boca. Quase tinha sido desmascarada. Onde já se viu inventar nome de vinho assim, no improviso? Nem sabia que faziam vinhos no Chile. Chutou a primeira origem geográfica que lhe passou pela cabeça. “Mais sorte do que juízo, hein dona Cláudia?”, pensou. Estava cada vez mais atolada.
-Não conheço. Mas se você diz que é bom, quero experimentar. – Comentou o rapaz, enquanto ensaiava um sorriso de canto de boca que só os grandes galãs do cinema, e os mentirosos em busca de redenção, eram capazes de exibir.
A Cláudia ficou encantada.
-É um homem muito sedutor. Tão sedutor quanto um seco italiano que provei certa vez na vinícola de um amigo meu...
-Italianos são incríveis. “Bambino Milano”, já experimentou? Encorpado, elegante. Como tudo que vem do mediterrâneo.
-Adoro! Mas tenho um gosto mais... Contemporâneo.
-Ah é? E entre os contemporâneos, o que sugere?
-Sul africanos! Levemente ácidos, e absolutamente pós-modernos.
-Ah, os pós-modernos...
-Embora eu tenha provado dia desses um espumante espanhol safra 1954 que, olha, vou te dizer... So-ber-bo.
-Hummm... Quase posso sentir o aroma. Espanhóis são sempre marcantes.
-Sem dúvidas. Deveria provar.
-Irei. Vou até pedir pro meu sommelier providenciar um. Aliás, estou com um tinto português lá em casa que eu estava planejado experimentar hoje à noite – Disse o Nathanael, antes de arrematar – Só me falta uma boa companhia... Gostaria de me acompanhar, enquanto provamos alguns aperitivos e vemos um filme?
A Cláudia sorriu.
-Um português é sempre um convite irresistível. Aceito! Só espero não te atrapalhar...
-Não irá. Sua companhia é tão suave como um bom rosé argentino. Será um prazer.
E saíram rumo ao caixa do supermercado lado a lado, enquanto narravam suas experiências etílicas imaginárias com vinhos do mundo todo. O Nathanael ainda tinha que inventar uma boa desculpa pra justificar a inexistência do tal “tinto português”, mas estava tão entretido com os notórios conhecimentos de sua acompanhante que mal podia lembrar que tudo não passava de uma farsa.
Mais tarde, já no apartamento, quando se deu conta do tamanho do problema que tinha arranjado, o Nathanel se desculpou enfaticamente e explicou que devia ter esquecido a garrafa na adega de algum amigo. Ela nem deu bola, estava mesmo interessada era na companhia.
No fim das contas, passaram a noite de mãos dadas, assistindo a novela das oito e bebendo Fanta uva.
Quem disse que o romantismo morreu?
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Normalidade
-Cara, eu sou normal?-Como assim?
-Normal, sabe...? Eu sou?
-Normal em que sentido?
-Sei lá. Normal! Do tipo que você cruza na rua e não percebe nada de esquisito, que não vira de costas pra ter certeza de que a pessoa é daquele jeito mesmo. Entende?
-Bem... Isso é meio confuso.
-Vai, não enrola. Responde, poxa!
-Eu acho que é.
-Em que sentido?
-Em todos, ué. Sei lá.
-Seja mais específico, por favor!
-Bem... Você tem dois olhos, um nariz, uma boca. Usa as pernas pra andar. Não usa a cueca por cima da calça... Normal, cara! Não sei de onde você tirou essa história.
-E psicologicamente? Tipo... Eu sou meio pirado?
-Como assim?
-Eu sou anormal?
-Não!
-Não, de que jeito?
-Não só tem um jeito de ser. Não é não!
-Quer dizer que não sou anormal?
-Não!
-Tem certeza?
-É... Acho que sim.
-Você titubeou.
-Não. Mas é que...
-O quê?
-É que essas suas perguntas sobre normalidade são tão estranhas que a gente fica até na dúvida se deve ou não afirmar que você é normal.
-Eu sabia! Sou anormal!
-Não foi isso que eu disse.
-Porra, Juarez! A gente se conhece a o quê? 20 anos?
-Por aí...
-Há 20 anos que eu sou anormal e você só me avisa agora? Que tipo de amigo é você?
-Eu não disse que você é anormal!
-Claro que disse. E sabe o que é pior? Você me escondeu isso. Mas, nas entrelinhas, eu sempre soube.
-Cara, isso é paranoia.
-Agora eu sei. Tudo faz sentido. Tudo se encaixa.
-De onde você tirou isso?
-No colégio, era de mim que a turma do fundão ria. Nos danceterias, barzinhos, as meninas evitavam chegar perto de mim. Tinham receio de minha anormalidade. Quando recusavam meus pedidos por vagas de trabalho, eles alegavam que eu era anormal. E o pior é que era tão evidente...
-Cara...
-Vinte anos, Juarez! Há malditos 20 anos você me esconde isso. Há 20 anos você me deixou sair pelas ruas sem qualquer tipo de aviso. Sem me dizer que as pessoas iriam olhar de uma maneira diferente. 20 anos! Que tipo de amigo é você, Juarez?
-Tira isso da cabeça, Ademar! Você não é anormal!
-Não confio mais em você.
-Veja bem: se você de fato não fosse normal, porque é que eu iria me relacionar com você? O que eu ganharia com isso? Eu seria um anormal, também!
-Você?
-Lógico. E pensando bem, quer saber? O que é ser normal afinal de contas, hein? Me defina, o que é normalidade para você!
-Bem...
-Pois fique sabendo que somos todos anormais, Ademar! Todos, sem exceção!
-Não somos não.
-Claro que somos. Olhe em volta, Ademar. Essa sociedade em que vivemos pode ser chamada de normal? Normal, Ademar?
-Bem...
-Esse mundo é louco, Ademar. Tá me ouvindo? Louco.
-Mas...
-Vamos filosofar, Ademar! Sabe quem é normal? Ninguém, Ademar! Nem eu, nem você.
-Juarez...
-Se você é anormal, Ademar, eu também sou. Não ligo. Somos amigos há 20 anos. Te apoio onde você for, do jeito que for preciso...
-Escuta! Juarez.
-Seremos dois anormais, Ademar. Eu e você. Dois amigos contrariando a normalidade.
-Juarez... Por favor, me escuta.
-Diga.
-Cara... Você está estranho.
-Como?
-Deveria procurar um psicólogo, sei lá. Não está falando coisa com coisa.
-Mas eu só estava...
-Na boa, estou falando isso para o seu bem. Você está me assustando.
-Eu?
-Sim, você. Acho que precisa de algum tipo de assistência psicológica. Está me deixando assustado, amigo.
-Mas...
-Não fala nada, Juarez. Só pense em você. Seja positivo e tudo vai dar certo.
Antes de se despedir definitivamente do Juarez e voltar às pressas para casa a fim de consultar a lista telefônica à procura de um bom psicanalista, o Ademar deu um longo e apertado abraço nele. Num momento como aquele, de instabilidade emocional, toda demonstração de carinho seria bem vinda.
Ao sair, refletiu sobre todo o tempo que passou ao lado do Juarez sem se dar conta do quanto ele era diferente do normal. Uma lástima não ter percebido antes.
Quem diria. O Juarez, hein? Um esquisito!
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